Cap 1 Fogo: Fenómeno Físico, Químico e Socio-Económico (Resistência e Resiliência ao Fogo Rural

Antes de se abordar a temática dos fogos ou incêndios (rurais, florestais) , é fundamental compreender o Fogo como um fenómeno universal presente na natureza, na ciência e na história humana.

1. Introdução

Este capítulo pretende estabelecer uma base conceptual sólida, integrando quatro dimensões complementares:

  • a dimensão científica (física e química);
  • a dimensão histórica (evolução do conhecimento);
  • as dimensões cultural e ecológica (o uso intencional do fogo pelas sociedades humanas).

1.1. “Fogo”, “Incêndio”, “Chama” e “Combustão”

Introdução ao Fogo como manifestação visível da combustão, distinguindo claramente entre fogo, chama e combustão.

É importante não confundir estes termos:

  • Combustão: um processo químico.
  • Fogo: um fenómeno observável resultante desse processo.
    • Incêndio: um fogo cuja dimensão e/ou intensidade podem causar sérios prejuízos.
  • Chama: a expressão visível da reação físico-química do fogo, uma reação gasosa.

Assim, o fogo é apenas a manifestação visível de um processo físico-químico designado por combustão. A combustão por seu lado, é uma reação química caracterizada por uma oxidação rápida que liberta energia sob a forma de calor, luz e produtos gasosos (dióxido ou monóxido de carbono) e cinza no seu final.

Do ponto de vista científico, o fogo não é uma substância nem um elemento, mas sim um processo (reação química, dinâmica e dependente de condições específicas).


1.2. O Fogo na Evolução do Conhecimento Humano

Breve contextualização histórica do entendimento do fogo: visões empíricas, teorias pré-científicas e consolidação científica moderna
Palavras-chave: Teoria do flogisto; Química da combustão; Oxigénio; Energia

A compreensão do fogo acompanhou a própria evolução do pensamento humano. Durante milénios, o fogo foi interpretado de forma empírica, simbólica ou mística, antes de ser compreendido cientificamente. Marcos importantes:

a. Acesso ao Uso do Fogo:

I – Domesticar a Arte do Uso do Fogo: O primeiro ato necessário, mas com um impacto profundo na vida da raça humana.

Arte-fogo-prehistoria

“Arte do Uso do Fogo”
Recriar o Fogo – Adicionar a Energia de Ativação (Calor por Fricção)

II. Explicar o Fenómeno do Fogo:

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A Aristotelian Element diagram illustration

A combustão (fogo) corresponde a um dos quatro Elementos Primordiais da Natureza: Terra / Fogo ; Ár / Agua

Perspectiva Pré-Científica (antes sec. XVIII)

A combustão (fogo) corresponde à libertação de uma substância (Flogisto)

Reação química Redox
Perspectiva Cientifica (pós sec XVIII)

A combustão (fogo) corresponde a uma Reação Química de oxidação e redução (Redox)

b. Combustão

Com o desenvolvimento da química moderna, o fogo passa a ser entendido como um exemplo de reação redox (oxidação-redução) envolvendo: a molécula do oxigénio (comburente) e moléculas de carbono (combustível), com libertação final de energia (exotérmica) e subprodutos (gases – dióxido ou monóxido de carbono- água e cinzas)

Tipo de Combustão:
  • Lenta (oxidação gradual – limitado acesso ao oxigénio): Sem chama (ex.: tapar as brasas com cinza) ou chama reduzida amarelada.
  • Rápida (oxidação facilitada pela ampla disponibilidade ao oxigénio): Produz-se fogo visível (chama) azul.
Variações:
  • Expontânea: Energia de ativação por fermentação ou aquecimento gradativo, mas suficiente para provocar a ignição.
  • Explosiva: dilatação súbita dos gases superaquecidos após ignição, associado a elevação da pressão

Influencia da duração (tempo) da combustão e carga de combustível na energia liberada
(Curva de Comportamento do Fogo)

Comportamento-fogo

Esta curva representa as diferentes fases ou etapas temporais que um incêndio atravessa, dependendo do acesso aos elementos da combustão: inicial, crescimento, desencadeamento total e decadência e/ou extinção.

É crucial reconhecer e respeitar esta curva para determinar a urgência das primeiras ações de controlo e combate ao incêndio.


1.3 Evolução da “Arte (do Uso) do Fogo” nas Culturas Antigas

”A inclusão deste tema não é meramente acessória, pois pretende ajudar a compreender a evolução do conceito de fogo nem sempre foi sinónimo de desastre. Durante milénios, foi visto como uma ferramenta para a gestão da paisagem e dos solos.”
Palavras-chave: Fogo cultural; Uso tradicional do fogo; Fertilidade do solo; Queimada controlada; Ciclos ecológicos

Muito antes da ciência moderna, várias sociedades humanas desenvolveram um uso intencional, controlado e cíclico do fogo, integrando-o nos seus sistemas de subsistência, reiniciando propositadamente novos ciclos de sucessão ecológica.

a. Fogo Cultural

Esta “Arte do Uso do Fogo” baseou-se no conhecimento empírico acumulado, na observação dos ciclos naturais e dos fenómenos de adaptação ocorridos no solo, vegetação e clima ,assim como o estabelecimento de novos equilíbrios nos ecossistemas afetados por estas práticas !

fogo-cultural

Populações Indígenas Amazónicas

“Arte do Uso do Fogo Cultural”

Apesar de se manterem práticas “controversas” e olhadas com algum ceticismo”, este uso tradicional do fogo na realidade visava apenas imitar a Natureza, na sua garantia de :

(a) renovação da fertilidade dos solos, através:

  • o controlo da vegetação indesejada,
  • o estímulo à regeneração de determinadas espécies pioneiras e de sucessão ecológica
  • a domesticação dos animais (pastoreio), com aumento temporário e recorrente, de nutrientes orgânicos (esterco) para incorporação no solo;

(b) diminuição da probabilidade de grandes fogos (incêndios), pela:

  • redução da carga de combustíveis finos (corte e queima);
  • manutenção de um modelo de mosaico de paisagem

(c) redução da mobilização do solo e trabalho de destroçar e lavrar dos terrenos, permitindo

  • a mineralização lenta e controlada da matéria inorgânica (cinza).
  • “‼️ ASSIM, o objetivo destas práticas não é eliminar completamente o fogo mas sim, dominar o momento, a intensidade e a frequência do fogo, de um modo seguro!”.

Existem referências científicas ao uso destas práticas tradicionais ainda nos nossos dias, nomeadamente, em paisagens de savana e matos expontâneos, ou nos sistemas agrosilvopastoris mais antigos.

b. Quais as potenciais Vantagens e Desvantagens destas Práticas Tradicionais (Fogo Cultural) ?

  • (👎) Efetivamente existem soluções alternativas ao uso direto do fogo (queimadas) para a gestão de combustível agroflorestais com menor impacto na produção de “Gases com Efeito de Estufa /Aquecimento Global”, para além da reconhecida associação entre estas práticas em períodos críticos e a ocorrência de ignições e propagação de fogos rurais;

  • (👍) Porem, para pequenos agricultores e/ou pastores, a facilidade na gestão do combustível vegetal e a possibilidade da “Natureza” se encarregar na manutenção da fertilidade dos solos por este processo (ver acima),

    • por alternativa à utilização intensiva e regular de maquinaria pesada para mobilização do solo e desbaste arbóreo, podem explicar a persistência destas práticas em certos meios.

🧮 Assim, e para se ultrapassar este dilema, é crucial:

  1. Possuir o conhecimento do saber-fazer inerente à “Arte do Uso do Fogo Cultural”;
    • Selecionar o momento mais vantajoso e praticar o fogo de baixa intensidade;
      Manter uma avaliação regular in loco da paisagem e dos fatores climáticos;
  2. Cumprir as regras divulgadas pelas autoridades responsáveis pela Gestão Integrada dos Fogos Rurais (nomeadamente da ICNF) através dos seus habituais meios de comunicação, como Mapas de Risco de Incêndio Rural, Cartazes de Divulgação de Medidas de Segurança Florestal, etc.

Proteja a sua floresta

Mas ainda “Mais do que Tudo”, é crucial:

  1. Garantir a transmissão intergeracional destes conhecimentos.

“‼️ A negação absoluta do fogo pode ser tão problemática
quanto o seu uso descontrolado.”

Léxico
  • Combustão: Reação química de oxidação rápida que liberta energia. Frequentemente confundida com fogo, a combustão é, cientificamente, o processo subjacente.
  • Fogo: Fenómeno visível resultante da combustão. Embora frequentemente associado apenas a incêndios destrutivos, o fogo engloba uma gama mais ampla de fenómenos.
  • Chama: Zona visível da combustão gasosa. A chama representa a parte “visível” do fogo.
  • Fogo Cultural: Uso intencional e tradicional do fogo para gestão do território. Este conceito é pouco conhecido ou, por vezes, confundido com práticas ilegais.
  • Fertilidade do Solo: Capacidade do solo fornecer nutrientes às plantas. Muitas vezes associada apenas a fertilizantes, a fertilidade do solo também depende de processos naturais.
  • Carga de Combustível: Quantidade de material inflamável disponível. Este termo é raramente percepcionado fora do contexto técnico.

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